Arquivos da repressão

Em dezembro de 2013 o assassinato de Chico Mendes completará 25 anos. O crime foi um dos poucos – entre tantos cometidos contra trabalhadores e lideranças de movimentos sociais na Amazônia – que alcançou repercussão internacional. Ainda assim, o que se sabe hoje, não apenas sobre sua morte e os interesses ligados a ela, mas também sobre sua vida, sua luta e seus companheiros?

vigiados

Como contribuição a reflexões que ainda se fazem necessárias, o CM Amazônia divulga alguns arquivos que nossa equipe de pesquisadores acessou no Arquivo Nacional, em Brasília. Eles não revelam os “grandes segredos” da repressão. Provavelmente nunca teremos acesso aos detalhes sobre a forma como o Estado brasileiro organizou suas forças de vigilância e controle (militares e civis) para fazer frente à luta contra o latifúndio 1. Mas os documentos confirmam aquilo que muitos preferem esquecer: a luta pela terra no Acre, na Amazônia, no Brasil, despertou (e ainda desperta) fortes reações. Os movimentos sociais foram acompanhados de perto pelos agentes da ditadura, quando não violentamente reprimidos. 

Os documentos devem ser lidos de forma crítica. Seu valor não está na opinião sobre pessoas e fatos que foram expressas por seus redatores. Nossa proposta não é avaliar a atuação de Chico Mendes e Osmarino, por exemplo, a partir da perspectiva de militares, policiais e informantes. A história do movimento não pode ser contada somente a partir dessas fontes. Mas elas nos ajudam a resgatar a radicalidade da luta – que vem sendo apagada pelas “fontes oficiais” – e destacar seu elo indissociável com o problema fundiário do restante do país. Isso não significa diminuir a “dimensão ecológica” da resistência dos seringueiros contra a derrubada da floresta. Mas questionar um tipo de ambientalismo que, dando as mãos ao agronegócio (e ao latifúndio, por consequência), se apresenta como realizador dos “sonhos de Chico Mendes”.

Com a divulgação desses documentos também buscamos alimentar o debate sobre a ampla violação de direitos (de manifestação, de livre expressão, etc.) que vem sendo promovida pelo Estado no Brasil. Prisões arbitrárias, censura, violência policial, vigilância e infiltração em movimentos sociais (como o caso da VALE) não pertencem ao passado. Para entender como atuam nossas instituições hoje, é preciso conhecer seu passado. Por isso, a memória é um direito pelo qual devemos lutar sempre.

 1 As investigações sobre a atuação dos agentes da ditadura no campo no Brasil ainda precisam ser aprofundadas. Moacir Gracindo Soares Palmeira, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coordenador do livro Retrato da repressão política no campo – Brasil 1962-1985: camponeses torturados, mortos e desaparecidos, afirma que quando se fala em ditadura, se pensa quase que automaticamente em repressão a estudantes, jornalistas e militantes de esquerda: “Apesar da chamada agitação no campo ter sido apontada como uma das causas do golpe militar, muito pouco se falava sobre a repressão no campo, principalmente em função da censura”, observou.Como exemplo desse esquecimento, pode-se mencionar a Revolta de Trombas e Formoso, em que um grupo de posseiros se organizou para lutar contra grileiros pela posse de terras devolutas na década de 50. Na época o grupo conseguiu o direito legal sobre as terras e começou a fundamentar as bases para uma sociedade cujo principal caráter era a cooperação. Apesar dos esforços, o projeto dos camponeses foi interrompido pelo vulto da ditadura militar. Arão de Souza, militante camponês da lembra que muitos companheiros e companheiras, bem como parentes destes, que lutaram bravamente na Revolta, foram enterrados como indigentes, não possuem certidão de óbito.

Anúncios