Arquivos da Repressão

DOCUMENTOS sobre a “subversão” no Acre (décadas de 1970  e 1980)

O CM Amazônia disponibiliza documentos (integrantes do acervo do Arquivo Nacional de Brasília) que revelam parte da história da repressão estatal dirigida contra o movimento dos seringueiros no Acre durante as décadas de 1970 e 1980. Eles foram produzidos, em sua maioria, pelo Serviço Nacional de Informações (SNI), por divisões do Comando Militar da Amazônia e pela superintendência regional da Polícia Federal.  A partir da leitura destes arquivos é possível perceber que os  agentes e instituições que atuaram no período da ditadura civil-militar no Brasil, executando sua violenta política de controle social, continuaram em operação mesmo após a dissolução oficial do regime, em 1985.

A repressão no campo

Depois de ter eliminado a resistência armada ao regime nos principais centros urbanos e no Araguaia, a repressão voltou sua atenção ao controle da crescente insatisfação dos trabalhadores do campo/floresta, que organizavam a luta contra a expansão do latifúndio e as más condições de trabalho, através de sindicatos rurais e ligas camponesas.  Segundo dados oficiais, mais camponeses foram mortos depois da abertura do regime, entre 1979 (Lei da Anistia) e 1988 (com a Constituinte) do que durante o auge repressivo da ditadura, entre o final dos anos 1960 e início dos anos 1970.  A maioria desses assassinatos foi executada por agentes privados (milícias e pistoleiros). Conforme  Gilney Viana, coordenador do projeto Direito à Memória e à Verdade da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, o poder do Estado no campo “era delegado a um fazendeiro, a um coronel que atuava às vezes como preposto da ditadura”.

Livro: Camponeses Mortos e Desaparecidos: Excluídos da Justiça de Transição
Livro:  Retrato da Repressão Política no Campo –  Brasil –  1962-1985 – camponeses torturados, mortos e desaparecidos


Relação entre o aparelho repressivo do Estado e agentes privados

No caso do Acre, o envolvimento de grupos ligados aos ruralistas (como a UDR) nas mortes de sindicalistas e seringueiros, não pode obscurecer o papel cumprido pelo Estado.  Os arquivos aqui disponibilizados demonstram que seus órgãos de vigilância e repressão participaram da perseguição aos “elementos subversivos” que eram combatidos pelos latifundiários. De fato, todos os passos das principais lideranças do movimento foram vigiados pelos olhos atentos dos agentes da repressão, assim como por seus informantes e colaboradores.

Mas por quê se estabeleceu tamanha vigilância sobre aquele movimento que se organizava em um estado relativamente isolado do resto do Brasil? Podem ser destacados três aspectos temidos pelos militares, de acordo com a análise apresentada em alguns documentos: 1) a capacidade de articulação local, nacional e internacional de suas principais lideranças (especialmente Chico Mendes); 2) as estratégias de luta adotadas pelos seringueiros (os “empates”);  3) o impacto de possível disseminação dessa luta para outras regiões da Amazônia.

É possível perceber que os militares souberam identificar a principal motivação de todo o processo de mobilização dos seringueiros no Acre: a luta pela terra e pela reforma agrária.  Achamos importante destacar este ponto, diante das tentativas de apropriação da imagem de Chico Mendes e do movimento dos seringueiros que tentam deturpar a história e retirar a radicalidade política da luta travada naquela época.

Velório de Chico Mendes (Arquivo da CPT)

Velório de Chico Mendes (Arquivo da CPT)